O doce sabor dos livros

     Carlos Urbim

     A Biblió nasceu no antigo prédio da Filosofia da UFRGS, em um encontro de guardiãs de livros, coordenado pela bibliotecária Ana Maria Dalla Zen. Elas sugeriram a produção de uma obra que estimulasse a leitura entre estudantes do ensino fundamental. O desafio era imenso. E intenso. Para o texto ser brincalhão, o mestre guia foi Mario Quintana, que sabia como poucos divertir a gurizada. Nunca seria um ensaio sisudo sobre a descoberta do prazer de ler, mas que chegasse aos pequenos com fantasia e muito afeto.

     O modelo passou a ser uma menininha bem pimpolha, que recém estava aprendendo a caminhar. Meio desajeitada, por causa do fraldão que deixava a bunda empinada. Por que traça? Ora, se os roedores de papéis são um tormento nas bibliotecas, nada melhor do que convertê-los em aliados dos livros, principalmente os escritos para crianças, cheios de belas ilustrações com castelos, princesas, flores e arco-íris. Os personagens de Uma Graça de Traça devoram volumes, claro, porém apenas aqueles chatos, abandonados nas prateleiras nunca mais vasculhadas.

     Narradas as aventuras de Biblió, e seu amor eterno pelo namorado Tracinho, a gente se dá conta de que tudo é uma grande brincadeira com os mais conhecidos contos de fadas, esses que a literatura oral imortalizou nos serões e saraus caseiros. Leitores atentos hão de perceber a homenagem aos que mantém sagrado o espaço escolar chamado biblioteca. Esse é o principal motivo de a Biblió ter se tornado uma espécie de mascote dos profissionais da Biblioteconomia. Ela, aliás, é diplomada e exerce funções de organização e manutenção de estantes sempre em ordem e à inteira disposição dos que adoram ler.

     Houve um dia em que a traça saltou do livro e ganhou vida própria. Pela sensibilidade da atriz Dinorah Araújo, tornou-se estrelinha do teatro gaúcho, se esbaldou em palcos de quase todo o Rio Grande do Sul durante vários anos. Volta e meia, a Biblió reaparece com o mesmo figurino para encantar novas gerações de leitores. Quando menos se espera, Biblió e Dinorah reinventam oportunidades de namorar o Tracinho, saborear vários tipos de papel e declamar poemas compostos para provar que a infância de qualquer espectador, de qualquer idade, nunca deixa de ser fascinante.

     Tantos anos depois do lançamento em 1987, a Biblió hoje é uma moça do mais fino trato, sempre disposta a ler e a indicar obras e autores preferidos. Ela sabe muito bem que existe no Rio Grande um excelente time de escritores dedicados a respeitar a inteligência dos leitores e a criar histórias capazes de perpetuarem o alumbramento proporcionado pela leitura. Nessa trajetória, o autor de Uma Graça de Traça, depois de tantas reedições do livro, sabe que o sucesso do personagem está no carinho e na dedicação, no talento e na persistência da atriz Dinorah Araújo, que traz no coração e na arte de representar a essência de tudo o que a Biblió tem para cativar a gurizada.

      A tracinha simpática se espalha pela Internet, com site próprio. Aventura-se pelas novidades tecnológicas que projetam o futuro. Seu recado, no entanto, é único: mesmo no mundo virtual, o gosto mais saboroso é o do papel desempenhado pelos livros em nossa vida.